O Qi dos cinco órgãos Zang corresponde ao funcionamento desses órgãos. Portanto, falar em Qi do Fígado é referir-se ao funcionamento fisiológio do sistema complexo que a medicina tradicional chinesa (MTC) chama de “Fígado”. Falar em Qi do Fígado é referir-se às suas funções. Cada órgão Zang desempenha um papel de destaque na fisiologia do corpo humano.
No entanto é preciso também levar em conta que as emoções não são entidades completamente distintas que de alguma forma vêm a perturbar o funcionamento dos órgãos Zang. As emoções são uma manifestação do Qi de cada um desses órgãos. Na verdade, as emoções são Qi! Elas são Qi de natureza emocional, são Qi cujo aspecto emocional é capaz de perturbar o Qi no seu aspecto fisiológico.
Distúrbios emocionais são Qi de natureza emocional que terminaram ganhando caráter patológico. Os distúrbios emocionais tanto podem ser fruto de desequilíbrios no funcionamento puramente fisiológico dos órgãos Zang quanto podem surgir independentemente de desequilíbrios fisiológicos e a partir daí prejudicar o funcionamento de um ou mais órgãos Zang. É por isso que, na visão da MTC, as emoções são a principal causa de doenças.
O capítulo 5 do Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing) é suficientemente explícito: “A ira lesa o fígado [...] A alegria lesa o coração [...] As preocupações lesam o baço [...] A melancolia [You] lesa o pulmão [...] O medo lesa os rins.” Esta citação costuma ser utilizada, porém, de maneira limitativa, como se uma emoção fosse capaz de prejudicar apenas o órgão tradicionalmente relacionado com ela. Yu Bo (1438-1517), o principal propagador da corrente de pensamento de Zhu Dan Xi, na obra Yi Xue Zheng Chuan (Transmissão correta do ensinamento médico), publicada em 1515, confirma o efeito das emoções sobre os órgãos Zang: “As sete emoções são extremas, os cinco órgãos Zang são lesados.”
Nunca é demais frisar que Qi emocionais podem perturbar os órgãos e que o mal funcionamento dos órgãos pode gerar Qi emocionais. Embora uma dada emoção possa afetar primeiro e principalmente o órgão com ela relacionado, certas emoções podem desregular ainda outros órgãos. Portanto, uma emoção persistente e repetitiva pode revelar a presença de um distúrbio no órgão correspondente ou ainda em outros órgãos. O diagnóstico é que revela que órgãos estão envolvidos, e às vezes é possível saber o que surgiu primeiro: o desequilíbrio fisiológico ou o desequilíbrio emocional.
Considere, por exemplo, o mecanismo patológico que pode ser a causa de determinados casos de insônia e dificuldade para adormecer. Sabe-se que as preocupações inquietantes (um Qi de natureza emocional) enfraquecem o Qi fisiológico do Baço, causando o quadro conhecido como Deficiência do Qi do Baço. Observa-se aqui um Qi emocional que perturba um Qi fisiológico. Essa Deficiência, por sua vez, resulta em menor produção de Qi e de Sangue. O Coração passa a ser malnutrido em Sangue. Desenvolve-se um quadro de Dupla Deficiência do Coração e do Baço. À noite, período em que o Shen precisa entrar e repousar no Yin, a Deficiência do Sangue do Coração priva o Shen da fundamentação Yin necessária. O Shen fica agitado, o que causa dificuldade para adormecer ou insônia.
Num caso como esse, a principal estratégia terapêutica não poderia ser apenas acalmar o Shen e favorecer o sono. Estas seriam estratégias secundárias. A principal deveria ser tonificar o Qi do Baço e nutrir o Sangue do Coração. A tonificação do Qi do Baço aumenta a resistência aos maus efeitos das preocupações e favorece a produção de Sangue. A melhor produção de Sangue beneficia o Coração. O Sangue é o palácio do Shen. À noite, a abundância de Sangue favorece o recolhimento do Shen no seu palácio para o período Yin, a noite.
Que solução propõe a acupuntura? Para insônia por excesso de preocupações, a obra Zhen Jiu Da Cheng (Compêndio de acupuntura e moxabustão), de Yang Ji Zhou, recomenda a seguinte associação de pontos: B 13 + Bç 9 + Bç 6. Eu acrescentaria Bç 1, que é ótimo no tratamento da Dupla Deficiência do Coração e do Baço. Esta obra, publicada em 1601, apresenta uma síntese de todos os conhecimentos sobre acupuntura e moxabustão desde a origem até a sua época. Suas inúmeras fórmulas de acupuntura e técnicas de inserção e tratamento já inspiraram várias gerações de acupunturistas.
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