O capítulo 5 do Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing) diz que as emoções são produto da transformação do Qi dos órgãos: “No homem há cinco Zang que produzem cinco Qi, os quais geram alegria, ira, preocupações, melancolia, medo.” Portanto, as faculdades psíquicas, mentais e emocionais dependem dos órgãos Zang. No entanto, o capítulo 8 salienta que a Vesícula Biliar, que não é um órgão Zang, mas Fu, é responsável pela tomada de decisões: “A vesícula biliar tem a função de juiz da corte imperial, de onde emana a tomada de decisões [Jue Dian].” Seria a Vesícula Biliar uma exceção?
O termo Jue Dian traduz a idéia de agir com firmeza a partir de uma dada decisão. Denota determinação e resolução. Conclui-se que a capacidade de tomar decisões depende do estado do Qi da Vesícula Biliar, o que implica que a Deficiência do Qi da Vesícula Biliar pode levar à perda dessa capacidade, provocando medo, indecisão e covardia. Diz um adágio popular chinês que a pessoa tímida “tem vesícula biliar pequena [Dan Xiao]” e que a pessoa corajosa “tem vesícula biliar grande [Dan Da]”. O capítulo 47 do Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing) diz: “Quando o homem faz inúmeras reflexões sem tomar nenhuma decisão, é porque o Qi da vesícula biliar está deficiente.”
O caráter excepcional da Vesícula Biliar na fisiologia das emoções ganha mais importância quando se considera a capacidade que esse órgão tem de atenuar o estresse físico e psicológico, tais como agressões mentais, e de estabilizar o Qi em momentos de choque emocional. Portanto, embora não seja um órgão Zang, a Vesícula Biliar pode ser utilizada na prática clínica para estabilizar as emoções. “Se o Qi da vesícula biliar é forte, os [Qi] perversos [neste caso as agressões psicológicas] não podem ofender [agredir].” – Yi Shu (Exposição sobre a medicina).
Quadros clínicos de estresse psicológico, medo, insônia e pesadelos, por exemplo, podem agravar-se em pacientes que apresentam Deficiência do Qi da Vesícula Biliar. É indiscutível que todo processo emocional relaciona-se com o Coração, central gerenciadora da fisiologia das emoções. Portanto, as funções da Vesícula Biliar no que diz respeito ao estado emocional só podem ser exercidas com a ajuda do Coração. O meridiano divergente da Vesícula Biliar passa pelo próprio músculo cardíaco, o que permite que o meridiano da Vesícula Biliar drene Qi emocionais em Plenitude no Coração e no seu meridiano. Não é por acaso que medo, insônia e palpitações integram a sintomatologia da síndrome Deficiência do Qi do Coração e da Vesícula Biliar.
A Vesícula Biliar é um órgão Fu que se relaciona também com o Fígado, órgão Zang. É justamente essa relação que lhe permite exercer ação psíquica na fisiologia das emoções. Fígado e Vesícula Biliar são interdependentes no seu funcionamento. Graças às suas funções de drenagem e livre circulação, o Fígado está encarregado de regular os Qi emocionais. Se o Fígado o faz, também pode fazê-lo a Vesícula Biliar. Aliás, depois do Coração, o Fígado é o órgão mais facilmente afetado por Qi emocionais. O meridiano da Vesícula Biliar encontra-se em relação Biao-Li (superfície-interior) com o meridiano do Fígado, o que lhe confere a capacidade de regular tanto o meridiano do Fígado quanto o do Coração. “O fígado tem a função de general do qual emanam os estratagemas e a reflexão.” – Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing), capítulo 8.
A Vesícula Biliar permite a audácia da ação e complementa a atuação do Fígado na esfera psíquica. “O fígado é o general da corte imperial. Ele obtém as suas decisões da vesícula biliar.” – Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing), capítulo 47.
Em suma, a Vesícula Biliar é exceção: é o único órgão Fu que participa na fisiologia das emoções. Ela atenua o efeito da agressão de Qi emocionais sobre o Fígado, na relação Biao-Li, e sobre o Coração, a central emocional.
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30/04/07
29/04/07
Fisiologia das emoções: coração ou cérebro?
SEGUNDO a medicina tradicional chinesa (MTC), a cada um dos cinco órgãos Zang (Coração, Fígado, Baço, Pulmão e Rins) associa-se uma emoção. O que são essas cinco emoções? É o Cérebro (Nao) ou é o Coração (Xin) que gere a fisiologia das emoções? [1]
No mundo manifestado tudo é Qi. [2] As emoções são Qi. O capítulo 5 do Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing) diz: “No homem há cinco Zang que produzem cinco Qi, os quais geram alegria, ira, preocupações, melancolia, medo.” Isso significa que as emoções nada mais são que produto da transformação do Qi dos órgãos Zang. O mesmo conceito encontra-se no capítulo 23: “Jing Qi acumula-se [é produzido] no coração, é [surge] a alegria; acumula-se no pulmão, é a tristeza; acumula-se no fígado, é a melancolia; acumula-se no baço, é a apreensão; acumula-se nos rins, é o medo.”
O ponto salientado nessa obra é de grande importância: aquilo que chamamos de alegria é na verdade expressão ou manifestação do Qi do Coração; o que chamamos tristeza é expressão do Qi do Pulmão; e o mesmo ocorre com as demais emoções em relação ao Qi do Fígado, do Baço e dos Rins. Cada uma das cinco emoções é fruto da transformação do Qi de um órgão Zang.
Zhang Jie Bin (1563-1640), uma das maiores personalidades da MTC, salienta no Lei Jing (Cânon de classificações) [3] que o Coração atua como coordenador dos órgãos Zang Fu. O que ele diz demonstra que a visão segundo a qual cada órgão Zang produz apenas uma determinada emoção e que cada emoção relaciona-se estaticamente somente com um órgão é demasiado simplista: “O coração gere os Zang Fu e preside o Hun e o Po, mas também o Yi e o Zhi. É por isso que [quando] a melancolia agita o coração, isso se reflete no pulmão; a atividade mental agita o coração, isso se reflete no baço; a ira agita o coração, isso se reflete no fígado; o medo agita o coração, isso se reflete nos rins. É por essa razão que as cinco emoções estão sob as ordens do coração.”
O Coração desempenha um papel especial na fisiologia das emoções. Ele abriga o Shen, o maestro da vida humana nas esferas psíquica, emotiva e mental. É ele quem equilibra a vida psico-emocional do homem. No entanto, apesar de atuar como maestro e de funcionar como central emocional, o Coração pode facilmente ser afetado de maneira adversa pelo seu próprio Qi emocional ou pelo Qi emocional de outros órgãos Zang. O capítulo 4 do Huang Di Nei Jing Ling Shu (Pivô espiritual do Huang Di Nei Jing) indica que o Coração está sujeito a desequilíbrios provocados pelos Qi emocionais procedentes de outros órgãos Zang: “[Se há] pesar, melancolia, medo, apreensão, o coração é lesado.” Salientando o mesmo ponto, a 49a Dificuldade do Nan Jing (Clássico de dificuldades) [4], uma das obras clássicas mais importantes da MTC, atribuída a Qin Yue Ren (século 4 AC), diz: “[Se há] melancolia, pesar, preocupações, ansiedade, o coração é lesado.”
Como se vê, é ao Coração que a MTC atribui funções fundamentais como central emocional. Mas em que medida participa o Cérebro? A MTC não o descarta. Ela estabelece um elo entre o Coração, o Cérebro, o pensamento, a inteligência e a memória.
Wang Ang (1615- ?), um dos grandes médicos da dinastia Qing e autor de várias obras, fez pesquisas em inúmeros campos, dentre os quais matéria médica, fórmulas e o Nei Jing. Na obra Ben Cao Bei Yao (O essencial da matéria médica), publicada em 1694, ele diz: “A memória do homem encontra-se completamente no centro do Cérebro.” Isso é significativo, porque tradicionalmente a memória é gerida pelo Coração.
A obra Yi Lin Gai Cuo (Correção dos erros da floresta médica), de Wang Qing Ren (1768-1831), grande mestre do fim da dinastia Qing, corrige erros anatômicos do corpo humano cometidos por seus predecessores e apresenta teorias pessoais, principalmente sobre estases de Sangue e a origem cerebral da atividade mental. Segundo o autor, “a inspiração [engenhosidade] e a memória não se encontram no coração; encontram-se no cérebro”. Vê-se que a teoria fundamental da MTC relaciona a memória ao Coração, sem, contudo, descartar o papel do Cérebro.
Nada disso quer dizer, porém, que num dado momento da evolução teórica da MTC o Coração tenha deixado de ser a central emocional gerenciadora das emoções. O Cérebro não passou a ocupar o lugar do Coração. O que se salienta é que o Cérebro, ou “mar das medulas”, também desempenha um papel importante na fisiologia das emoções, ainda que se deva admitir que a relação existente entre o Cérebro, o Coração, a memória e a atividade mental seja uma idéia relativamente recente em MTC, um conceito pertencente mais ao domínio taoísta do que ao domínio médico propriamente dito.
Para Zhang Xi Chun, um dos principais representantes da corrente que preconizava a associação da medicina chinesa e da medicina ocidental, a inteligência é fruto da cooperação entre o “mar das medulas” e o Coração. Ele diz: “O funcionamento da clareza de espírito [Shen Ming: a vivacidade, a acuidade e a força do Shen em operação] tem por fonte o coração e o cérebro que se complementam.” – Yi Xue Zhong Zhong Can Xi Lu.
Qual é então a diferença entre o “mar das medulas” e o Coração em termos de fisiologia das emoções? A diferença existe, é importante, mas é sutil. Para esclarecer esse ponto é preciso levar em conta que o Shen apresenta três facetas: 1) Yuan Shen, o espírito original, que reside no “mar das medulas”; 2) Shi Shen, o espírito do conhecimento ou intelecto, que reside no Coração; e 3) Yu Shen, o espírito dos desejos, o Fogo Ministro em Ming Men.
É digno de nota que essas três facetas do Shen implicam, respectivamente, o Cérebro, o Coração e os Rins. O livro Yi Xue Zhong Zhong Can Xi Lu, acima mencionado, confirma a participação do “mar das medulas” na fisiologia das emoções ao frisar que a primeira faceta do Shen reside no Cérebro: “Yuan Shen é estocado no cérebro. Não tem pensamento nem reflexão. [Está] naturalmente [relacionado com] o poder espiritual [Ling] e o vazio.” [5] Sobre o papel do Coração na gestão das emoções, o mesmo livro continua: “Shi Shen emana do coração, com pensamento e reflexão. [Está relacionado com] o poder espiritual, mas não com o vazio.” Tian He Lu, médico chinês contemporâneo, propõe uma explicação perfeitamente aceitável à luz dos textos clássicos acima discutidos. No livro Zhong Yi Nei Shang Huo Bing Xue (Estudo sobre as lesões internas das doenças do Fogo da medicina chinesa), ele explica que o “mar das medulas” constitui Ti (“o corpo do espírito”) e que o Coração representa Yong (“a função do espírito”).
Mais uma vez entram em cena Yin e Yang, o princípio fundamental da existência de todas as coisas. A interdependência Yin Yang fica evidente na relação entre Ti e Yong. Na obra contemporânea Da Zhong Yi Yao (Medicinas populares), Wu Ke Qian recorre à Água e ao Fogo para ilustrar como ocorre a cooperação entre o Coração e o Cérebro: “É graças à união entre o coração e os rins, à assistência entre a água e o fogo, que o Shen desempenha bem as suas funções. O coração pertence ao fogo. O fogo pode esclarecer os seres e desce para iluminar os rins. Os rins são a água. A água pode refletir as coisas e sobe para comunicar-se com o coração. O Yang funciona, o Yin hidrata. O fogo utiliza, a água nutre. Um apoia o outro, um relaciona-se com o outro, um não pode separar-se do outro. A água [Jing] dos rins que nutre e gera é o corpo do cérebro. A inteligência e a luz do fogo do coração são a função do cérebro.” – Citação extraída do Zhong Yi Ming Yan Da Ci Dian (Grande dicionário de citações da medicina chinesa), de Lui Dao Qing e de Zhou Yi Mou, 1991.
Em suma, tanto o Coração quanto o Cérebro participam na fisiologia das emoções. O Coração é, como sempre foi, o órgão-imperador, a central do gerenciamento psico-emocional. É o órgão Zang que ocupa o papel de maestro das emoções. O Cérebro também coopera na fisiologia das emoções. Na verdade, parte das funções do Coração, em MTC, corresponde às funções cerebrais, na medicina ocidental. Um e outro são mencionados nas obras clássicas da MTC. Ambos são importantes na fisiologia das emoções, sem que com isso seja necessário alterar a dialética fundamental do diagnóstico tradicional chinês.
(1) A utilização de iniciais maiúsculas para os órgãos Zang Fu tem por objetivo definir claramente quando se fala das “entidades energéticas chinesas” em contraste com os órgãos internos conforme definidos pela medicina ocidental. Não utilizo esse recurso, porém, nas citações diretas de obras clássicas.
(2) Termo de difícil tradução, que se refere ao dinamismo fundamental que se encontra na base de todas as manifestações do universo. “Energia” não é suficiente para expressar a complexidade desse conceito. Em MTC, o Qi dos órgãos Zang refere-se, grosso modo, às suas atividades funcionais.
(3) Zhang Jie Bin foi uma grande personalidade da medicina chinesa, um dos mais renomados comentaristas do Nei Jing (Cânon interno) e autor de inúmeros esclarecimentos de assuntos complexos. Sua obra central é o Lei Jing (Cânon de classificações [subentendem-se classificações de diferentes temas do Nei Jing com explicações]), publicada em 1624.
(4) Esta obra, também chamada de Huang Di Ba Shi Yi Nan Jing (Clássico das vinte e quatro dificuldades do Imperador Amarelo), esclarece assuntos difíceis, teorias complexas ou incoerências procedentes do Huang Di Nei Jing (Cânon interno do Imperador Amarelo) ou que circulavam durante as dinastias Qin e Han. Compõe-se de 81 dificuldades e o mesmo número de capítulos. Como no caso do Nei Jing, o número 81 é o produto de 9 x 9. O número 9 representa o que se acha terminado, perfeito. É uma obra fundamental para a compreensão da MTC e da sua bíblia, o Nei Jing.
(5) Ling é o poder espiritual do universo, que transcende todo espírito. No que diz respeito ao ser humano, pode corresponder ao princípio espiritual que subsiste após a morte. Portanto, Yuan Shen seria o representante, no homem, do poder espiritual do universo.
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No mundo manifestado tudo é Qi. [2] As emoções são Qi. O capítulo 5 do Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing) diz: “No homem há cinco Zang que produzem cinco Qi, os quais geram alegria, ira, preocupações, melancolia, medo.” Isso significa que as emoções nada mais são que produto da transformação do Qi dos órgãos Zang. O mesmo conceito encontra-se no capítulo 23: “Jing Qi acumula-se [é produzido] no coração, é [surge] a alegria; acumula-se no pulmão, é a tristeza; acumula-se no fígado, é a melancolia; acumula-se no baço, é a apreensão; acumula-se nos rins, é o medo.”
O ponto salientado nessa obra é de grande importância: aquilo que chamamos de alegria é na verdade expressão ou manifestação do Qi do Coração; o que chamamos tristeza é expressão do Qi do Pulmão; e o mesmo ocorre com as demais emoções em relação ao Qi do Fígado, do Baço e dos Rins. Cada uma das cinco emoções é fruto da transformação do Qi de um órgão Zang.
Zhang Jie Bin (1563-1640), uma das maiores personalidades da MTC, salienta no Lei Jing (Cânon de classificações) [3] que o Coração atua como coordenador dos órgãos Zang Fu. O que ele diz demonstra que a visão segundo a qual cada órgão Zang produz apenas uma determinada emoção e que cada emoção relaciona-se estaticamente somente com um órgão é demasiado simplista: “O coração gere os Zang Fu e preside o Hun e o Po, mas também o Yi e o Zhi. É por isso que [quando] a melancolia agita o coração, isso se reflete no pulmão; a atividade mental agita o coração, isso se reflete no baço; a ira agita o coração, isso se reflete no fígado; o medo agita o coração, isso se reflete nos rins. É por essa razão que as cinco emoções estão sob as ordens do coração.”
O Coração desempenha um papel especial na fisiologia das emoções. Ele abriga o Shen, o maestro da vida humana nas esferas psíquica, emotiva e mental. É ele quem equilibra a vida psico-emocional do homem. No entanto, apesar de atuar como maestro e de funcionar como central emocional, o Coração pode facilmente ser afetado de maneira adversa pelo seu próprio Qi emocional ou pelo Qi emocional de outros órgãos Zang. O capítulo 4 do Huang Di Nei Jing Ling Shu (Pivô espiritual do Huang Di Nei Jing) indica que o Coração está sujeito a desequilíbrios provocados pelos Qi emocionais procedentes de outros órgãos Zang: “[Se há] pesar, melancolia, medo, apreensão, o coração é lesado.” Salientando o mesmo ponto, a 49a Dificuldade do Nan Jing (Clássico de dificuldades) [4], uma das obras clássicas mais importantes da MTC, atribuída a Qin Yue Ren (século 4 AC), diz: “[Se há] melancolia, pesar, preocupações, ansiedade, o coração é lesado.”
Como se vê, é ao Coração que a MTC atribui funções fundamentais como central emocional. Mas em que medida participa o Cérebro? A MTC não o descarta. Ela estabelece um elo entre o Coração, o Cérebro, o pensamento, a inteligência e a memória.
Wang Ang (1615- ?), um dos grandes médicos da dinastia Qing e autor de várias obras, fez pesquisas em inúmeros campos, dentre os quais matéria médica, fórmulas e o Nei Jing. Na obra Ben Cao Bei Yao (O essencial da matéria médica), publicada em 1694, ele diz: “A memória do homem encontra-se completamente no centro do Cérebro.” Isso é significativo, porque tradicionalmente a memória é gerida pelo Coração.
A obra Yi Lin Gai Cuo (Correção dos erros da floresta médica), de Wang Qing Ren (1768-1831), grande mestre do fim da dinastia Qing, corrige erros anatômicos do corpo humano cometidos por seus predecessores e apresenta teorias pessoais, principalmente sobre estases de Sangue e a origem cerebral da atividade mental. Segundo o autor, “a inspiração [engenhosidade] e a memória não se encontram no coração; encontram-se no cérebro”. Vê-se que a teoria fundamental da MTC relaciona a memória ao Coração, sem, contudo, descartar o papel do Cérebro.
Nada disso quer dizer, porém, que num dado momento da evolução teórica da MTC o Coração tenha deixado de ser a central emocional gerenciadora das emoções. O Cérebro não passou a ocupar o lugar do Coração. O que se salienta é que o Cérebro, ou “mar das medulas”, também desempenha um papel importante na fisiologia das emoções, ainda que se deva admitir que a relação existente entre o Cérebro, o Coração, a memória e a atividade mental seja uma idéia relativamente recente em MTC, um conceito pertencente mais ao domínio taoísta do que ao domínio médico propriamente dito.
Para Zhang Xi Chun, um dos principais representantes da corrente que preconizava a associação da medicina chinesa e da medicina ocidental, a inteligência é fruto da cooperação entre o “mar das medulas” e o Coração. Ele diz: “O funcionamento da clareza de espírito [Shen Ming: a vivacidade, a acuidade e a força do Shen em operação] tem por fonte o coração e o cérebro que se complementam.” – Yi Xue Zhong Zhong Can Xi Lu.
Qual é então a diferença entre o “mar das medulas” e o Coração em termos de fisiologia das emoções? A diferença existe, é importante, mas é sutil. Para esclarecer esse ponto é preciso levar em conta que o Shen apresenta três facetas: 1) Yuan Shen, o espírito original, que reside no “mar das medulas”; 2) Shi Shen, o espírito do conhecimento ou intelecto, que reside no Coração; e 3) Yu Shen, o espírito dos desejos, o Fogo Ministro em Ming Men.
É digno de nota que essas três facetas do Shen implicam, respectivamente, o Cérebro, o Coração e os Rins. O livro Yi Xue Zhong Zhong Can Xi Lu, acima mencionado, confirma a participação do “mar das medulas” na fisiologia das emoções ao frisar que a primeira faceta do Shen reside no Cérebro: “Yuan Shen é estocado no cérebro. Não tem pensamento nem reflexão. [Está] naturalmente [relacionado com] o poder espiritual [Ling] e o vazio.” [5] Sobre o papel do Coração na gestão das emoções, o mesmo livro continua: “Shi Shen emana do coração, com pensamento e reflexão. [Está relacionado com] o poder espiritual, mas não com o vazio.” Tian He Lu, médico chinês contemporâneo, propõe uma explicação perfeitamente aceitável à luz dos textos clássicos acima discutidos. No livro Zhong Yi Nei Shang Huo Bing Xue (Estudo sobre as lesões internas das doenças do Fogo da medicina chinesa), ele explica que o “mar das medulas” constitui Ti (“o corpo do espírito”) e que o Coração representa Yong (“a função do espírito”).
Mais uma vez entram em cena Yin e Yang, o princípio fundamental da existência de todas as coisas. A interdependência Yin Yang fica evidente na relação entre Ti e Yong. Na obra contemporânea Da Zhong Yi Yao (Medicinas populares), Wu Ke Qian recorre à Água e ao Fogo para ilustrar como ocorre a cooperação entre o Coração e o Cérebro: “É graças à união entre o coração e os rins, à assistência entre a água e o fogo, que o Shen desempenha bem as suas funções. O coração pertence ao fogo. O fogo pode esclarecer os seres e desce para iluminar os rins. Os rins são a água. A água pode refletir as coisas e sobe para comunicar-se com o coração. O Yang funciona, o Yin hidrata. O fogo utiliza, a água nutre. Um apoia o outro, um relaciona-se com o outro, um não pode separar-se do outro. A água [Jing] dos rins que nutre e gera é o corpo do cérebro. A inteligência e a luz do fogo do coração são a função do cérebro.” – Citação extraída do Zhong Yi Ming Yan Da Ci Dian (Grande dicionário de citações da medicina chinesa), de Lui Dao Qing e de Zhou Yi Mou, 1991.
Em suma, tanto o Coração quanto o Cérebro participam na fisiologia das emoções. O Coração é, como sempre foi, o órgão-imperador, a central do gerenciamento psico-emocional. É o órgão Zang que ocupa o papel de maestro das emoções. O Cérebro também coopera na fisiologia das emoções. Na verdade, parte das funções do Coração, em MTC, corresponde às funções cerebrais, na medicina ocidental. Um e outro são mencionados nas obras clássicas da MTC. Ambos são importantes na fisiologia das emoções, sem que com isso seja necessário alterar a dialética fundamental do diagnóstico tradicional chinês.
(1) A utilização de iniciais maiúsculas para os órgãos Zang Fu tem por objetivo definir claramente quando se fala das “entidades energéticas chinesas” em contraste com os órgãos internos conforme definidos pela medicina ocidental. Não utilizo esse recurso, porém, nas citações diretas de obras clássicas.
(2) Termo de difícil tradução, que se refere ao dinamismo fundamental que se encontra na base de todas as manifestações do universo. “Energia” não é suficiente para expressar a complexidade desse conceito. Em MTC, o Qi dos órgãos Zang refere-se, grosso modo, às suas atividades funcionais.
(3) Zhang Jie Bin foi uma grande personalidade da medicina chinesa, um dos mais renomados comentaristas do Nei Jing (Cânon interno) e autor de inúmeros esclarecimentos de assuntos complexos. Sua obra central é o Lei Jing (Cânon de classificações [subentendem-se classificações de diferentes temas do Nei Jing com explicações]), publicada em 1624.
(4) Esta obra, também chamada de Huang Di Ba Shi Yi Nan Jing (Clássico das vinte e quatro dificuldades do Imperador Amarelo), esclarece assuntos difíceis, teorias complexas ou incoerências procedentes do Huang Di Nei Jing (Cânon interno do Imperador Amarelo) ou que circulavam durante as dinastias Qin e Han. Compõe-se de 81 dificuldades e o mesmo número de capítulos. Como no caso do Nei Jing, o número 81 é o produto de 9 x 9. O número 9 representa o que se acha terminado, perfeito. É uma obra fundamental para a compreensão da MTC e da sua bíblia, o Nei Jing.
(5) Ling é o poder espiritual do universo, que transcende todo espírito. No que diz respeito ao ser humano, pode corresponder ao princípio espiritual que subsiste após a morte. Portanto, Yuan Shen seria o representante, no homem, do poder espiritual do universo.
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