A importância do Shen no estudo da fisiopatologia humana na visão da medicina tradicional chinesa (MTC) é reconhecida por todos os que a estudam a sério. No entanto, a complexidade do Shen ainda desconcerta os estudiosos.
A origem do Shen
O Shen é o aspecto mais universal do homem. Atua como gerenciador da vida. Procede do Wu Ji (“o não-manifestado”) e proporciona ao ser humano tanto dinamismo quanto forma. A sua primeiríssima manifestação no homem ocorre na concepção.
No momento da concepção, o encontro de Jing Ye (o Jing espesso, esperma) com Jing Xue (o Jing do Sangue, sangue genésico) dá origem ao Jing. De que se trata? Do elemento fundamental de todas as funções e estruturas e suporte das manifestações psíquicas, mentais e emocionais do homem. No capítulo 8, a obra Huang Di Nei Jing Ling Shu (Pivô espiritual do Huang Di Nei Jing) comprova este conceito ao dizer: “Os dois Jing [Jing Ye e Jing Xue] que se juntam chamam-se Shen.” Portanto é correto dizer que o Shen estrutura-se graças à união do Jing masculino e do Jing feminino. O Jing formado como fruto dessa união é o alicerce “material” (graças à sua natureza Yin) do Shen (cuja natureza é Yang).
Disso se conclui que a qualidade do Jing do céu posterior depende da qualidade do Jing do céu anterior. Logo, a qualidade do Shen, cuja natureza é Yang, depende da qualidade do Jing, que é o seu alicerce Yin. É nesse sentido que se costuma dizer que Jing produz Shen. O Jing, enquanto “suporte material” Yin, permite a manifestação concreta do Shen. O Shen precisa desse suporte material para poder manifestar-se e fundamentar-se.
O que nutre e sustém o Shen após o nascimento? Tanto o Jing herdado dos pais por ocasião da união entre Jing Ye e Jing Xue, ou seja, o alicerce operacional do Shen, quanto o Jing produzido a partir da transformação da “água e dos grãos” consumidos na alimentação. “Perder Shen é morte; obter Shen é vida” diz o capítulo 54 da obra Huang Di Nei Jing Ling Shu (Pivô espiritual do Huang Di Nei Jing).
Isso explica por que determinados problemas psíquicos podem ser tratados via Jing, ou seja, por caminhos que passam pelo “material”, pelo “concreto”. Pode-se tratar o Shen tratando-se o Jing e o Qi.
Características do Shen no homem
O Shen reside no Coração ou no cérebro, ou em ambos, conforme o ponto de vista. (Veja o artigo Fisiologia das emoções: coração ou cérebro?.) Ele anima a vida física e psíquica do ser humano. O corpo depende do Shen e o Shen depende do corpo, assim como Yin e Yang são interdependentes. O corpo não pode existir sem Shen; o Shen não pode manifestar-se sem o corpo. “[Quando] o Shen ganha [assume] a sua função, há prosperidade; [quando] o Shen perde a sua função, é a morte.” – Nei Jing Yao Lue (Anotações maiores do Nei Jing), de Xu Da Chun (1693-1771). (Xu Da Chun influenciou fortemente a maneira de conceber e de praticar a medicina chinesa na sua época ao explicar as teorias e sua experiência com lógica e metodologia. Foi ardente defensor da tradição médica chinesa, expondo os conceitos e as ações de quem corrompia a medicina chinesa. Já naquela época acontecia isso!)
Seguem-se citações clássicas sobre o Shen que revelam algumas das suas características:
O Shen é a raiz da vida.” – Han Shu (O livro dos Han), de Ban Gu, dinastia Han.
“Sem Shen, a forma [corpo] não pode viver; sem forma [corpo], o Shen [é] sem vida.” – Lei Jing (Cânon de classificações), de Zhang Jie Bin (1563-1640). Obra publicada em 1624.
“É o Shen que faz que os ouvidos, os olhos, as mãos e os pés escutem, enxerguem, apalpem e andem.” – Shou Shi Chuan Zhen (Verdadeira transmissão da longevidade), de Xu Jing Shen. Obra publicada em 1771, na dinastia Qing.
“O corpo é a casa da vida [...] o Shen é o governador da vida.” – Huai Nan Zi (Contemplações dos mestres de Huai Nan), obra de referência, escrita por sábios taoístas por volta de 110 AC por incentivo de Liu An, rei de Huai Nan, na dinastia Han.
“Com a presença do Shen há prosperidade; sem Shen há morte.” – Huang Di Nei Jing Su Wen (Questões básicas do Huang Di Nei Jing), capítulo 13, dinastia Han.
“O Shen por natureza permite as percepções. Por exemplo, [graças a ele] o ouvido pode ter a capacidade de conhecer os cinco sons, os olhos podem ter a capacidade de conhecer as cores, o nariz pode ter a capacidade de conhecer os odores, a boca pode ter a capacidade de conhecer os sabores, a língua pode ter a capacidade de emitir sons.” – Se Zhen Mian Se Zong Yi (Compilações significativas sobre o diagnóstico pela cor e pela cor do rosto), de Zhou Xue Hai (1856-1906).
Para fins didáticos...
Apenas para fins de compreensão e didática pode-se classificar as características do Shen da seguinte forma:
Consciência vivificadora: o Shen dá origem à vida; dá impulso da vida; primeiro estrutura-se o Shen para depois passar a existir o indivíduo.
Consciência criadora: o Shen favorece o encontro entre Jing Ye e Jing Xue; ele carrega em si o projeto de vida do indivíduo; é força individualizadora.
Consciência espiritualizante: é o elemento mais espiritual do ser humano; encontra-se na origem do desenvolvimento espiritual do ser humano. Talvez seja esta a função mais importante do Shen. É o Shen que faz o homem cumprir Tian Ming, “o mandato celestial”. Para este fim, o Shen desempenha a função de “soberano mediador”. Tian Ming representa a execução da missão que o indivíduo deve assumir para com a sociedade. Naturalmente, “o mandato celestial” (Tian Ming) pode ser aplicado segundo o potencial e o livre arbítrio de cada um. Tian Ming tem relação direta com Ming Yun (nesta expressão, Ming refere-se ao conjunto de capacidades e deficiências de cada um ao nascer, a base da natureza profunda de cada um; Yun refere-se à execução da missão de cada um.)
Consciência organizadora: o princípio organizador orquestrado conjuntamente pelo Jing herdado e pelo Jing adquirido.
Consciência individualizadora: o Shen proporciona as características mais individualizadoras de cada ser humano. É portador de uma linhagem peculiar. Determina tendências e caracteríticas de personalidade.
Consciência da própria existência: o Shen é o conjunto das faculdades psíquicas, físicas e intelectuais manifestadas em nível consciente.
Consciência sensorial e comunicativa: o Shen é o organizador dos cinco sentidos, isto é, os cinco “orifícios límpidos do Coração”. Ele os usa como instruments ou janelas de comunicação com o mundo exterior. Portanto, o Shen utiliza os cinco sentidos para que haja participação ativa no mundo circundante.
Consciência mental: refere-se à capacidade de pensar, memorizar e sintetizar, o que inclui o intelecto.
No Shen exterioriza-se a vitalidade de cada indivíduo. Daí porque o Shen é elemento de diagnóstico. O olhar, a cor da pele, a vivacidade das palavras e o sorriso são exemplos de elementos a observar para a avaliação do estado do Shen e, portanto, do grau de vitalidade e saúde do indivíduo. “O Shen do coração manifesta-se nos olhos”, diz Yi Shuo (Explicações sobre a medicina), de Zhang Gao (1149-1227).
Para concluir este breve estudo sobre as características do Shen no ser humano, traduzo abaixo o capítulo 19 (“Admoestações para poupar o Baço”) da obra Pi Wei Lun (Tratado sobre o Baço e o Estômago), de Li Dong Yuan, segundo a nova edição de Li Dong-Yuan’s Treatise on the Spleen & Stomach – A translation of the Pi Wei Lun, por Bob Flaws. Vale notar os comentários de Bob Flaws (em itálico) sobre uma característica do Shen que costuma ser mal compreendida. Entender o ponto salientado por Bob Flaws pode fazer toda a diferença no tratamento de pacientes com distúrbios do Shen:
O Qi é antepassado do Shen, e o Jing é descendente do Qi. Em outras palavras, o Shen não passa de um acúmulo de Qi no Coração, e o Jing é constituído do excedente de Qi e de Sangue estocados nos cinco Zang. [Assim,] o Qi é a raiz do Jing e do Shen. O Qi produz tanto o Shen quanto o Jing do céu posterior. O Qi é fabuloso! Ao acumular-se, Qi produz Jing. Ao acumular-se, Jing produz Shen. Isto significa que Sangue e Jing são necessários para nutrir o Shen e mantê-lo saudável. Este texto elucida com clareza e em poucas palavras a relação entre Shen, Qi e Jing. Levando-se isto em conta, vê-se que Li Dong Yuan considera esta relação [entre Qi, Shen e Jing] algo absolutamente natural (em nada sobrenatural ou espiritual).”
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